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Fim da escala 6×1 pode transformar o varejo e expor empresas despreparadas

Fim da escala 6×1 pode transformar o varejo e expor empresas despreparadas
A possível redução da jornada de trabalho no Brasil pode elevar os custos das empresas e exigir mudanças profundas no funcionamento do varejo. Porém, mais do que uma questão trabalhista, o debate também revela um problema antigo: muitos negócios ainda dependem de jornadas extensas, controles manuais e da presença constante do proprietário para conseguir operar. Enquanto parte dos empresários aguarda uma decisão do Congresso sobre o futuro da escala 6×1, empresas mais preparadas já revisam processos, investem em automação, adotam novos canais de venda e procuram aumentar a produtividade por hora trabalhada. A mudança pode representar uma ameaça para operações improvisadas, mas também uma oportunidade para negócios que desejam se tornar mais eficientes e competitivos. Impacto financeiro pode chegar a R$ 158 bilhões Uma estimativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, a FecomercioSP, aponta que a redução da jornada semanal para 40 horas poderia gerar um custo de aproximadamente R$ 158 bilhões para as empresas brasileiras. O impacto é expressivo e reforça a necessidade de segurança jurídica durante qualquer alteração nas regras trabalhistas. Entretanto, parte desse custo também pode estar relacionada a ineficiências acumuladas dentro das próprias empresas. Negócios com tarefas repetitivas, processos desorganizados, baixa produtividade e pouca tecnologia tendem a sentir mais intensamente os efeitos de uma redução na jornada. Isso acontece porque precisam realizar as mesmas atividades em menos tempo e, em alguns casos, contratar mais funcionários para manter a operação. Já as empresas que documentaram processos, automatizaram tarefas e criaram uma cultura orientada a resultados conseguem reagir com maior velocidade. Em vez de avaliar o desempenho somente pela quantidade de horas cumpridas, elas observam produtividade, qualidade e entregas realizadas. Experiências internacionais mostram resultados diferentes A redução da jornada de trabalho já foi testada em outros países. Na Islândia, entre 2015 e 2019, mais de 2.500 trabalhadores de diferentes setores participaram de experiências com jornadas menores. No Reino Unido, um grande teste realizado em 2022 reuniu 61 empresas e aproximadamente 3.000 funcionários em uma experiência com a semana de quatro dias. Os resultados dessas iniciativas indicaram aumento de produtividade, crescimento de receita em algumas empresas e redução na rotatividade de funcionários. Os dados sugerem que trabalhar menos horas não significa necessariamente produzir menos. Porém, o desempenho pode variar de acordo com o setor. Uma experiência realizada em municípios da região de Valência, na Espanha, concentrou feriados e, na prática, reduziu os dias disponíveis para algumas atividades econômicas. Durante o período analisado, áreas como turismo e hospitalidade apresentaram crescimento, enquanto o varejo registrou queda nas vendas. O resultado chama a atenção para a dependência que muitas lojas ainda possuem do atendimento presencial. Quando a venda depende exclusivamente da presença de um funcionário no estabelecimento, qualquer redução nos dias ou nas horas de funcionamento pode afetar diretamente o faturamento. Varejo precisa vender mesmo quando a loja está fechada O varejo tradicional ainda enfrenta dificuldades para integrar lojas físicas, comércio eletrônico, redes sociais, aplicativos e atendimento por mensagens. Sem canais alternativos, a ausência do vendedor pode representar a interrupção completa das vendas. Uma operação mais preparada consegue atender o consumidor em diferentes ambientes. O cliente pode conhecer o produto pelas redes sociais, tirar dúvidas pelo WhatsApp, concluir a compra pela internet e retirar o pedido em uma unidade física. Essa integração, conhecida como estratégia omnichannel, reduz a dependência de um único ponto de contato. Também permite que a empresa continue vendendo mesmo quando a loja física estiver fechada ou funcionando com uma equipe reduzida. Além da tecnologia, é necessário investir em treinamento. Sistemas digitais não resolvem o problema quando os funcionários não sabem utilizá-los ou quando os procedimentos internos não estão definidos. Empresas dependentes do proprietário estão mais vulneráveis Outro sinal de despreparo é quando todas as decisões precisam passar pelo dono ou pelo gerente. Existem empresas com faturamento elevado que continuam funcionando com um modelo centralizado, no qual a presença física de uma pessoa é o principal instrumento de controle. Para avaliar a maturidade da operação, o empresário pode fazer uma pergunta simples: se faltasse um funcionário por turno, qual atividade deixaria de funcionar primeiro? Se a ausência de uma única pessoa paralisa toda a empresa, o principal problema provavelmente não está na escala de trabalho, mas na falta de processos, treinamento e distribuição adequada de responsabilidades. Negócios estruturados evitam concentrar conhecimentos importantes em um único funcionário. Os procedimentos críticos são registrados, ensinados e acompanhados por indicadores. Assim, profissionais treinados conseguem executar as tarefas necessárias com consistência. Processos ajudam empresas a produzir mais Grandes companhias mostram como a eficiência pode reduzir a dependência do aumento constante das equipes. A Zara, por exemplo, tornou-se conhecida por conseguir levar novos produtos do desenvolvimento às lojas em prazos reduzidos. Essa velocidade depende de uma cadeia organizada e de processos bem coordenados. A Wellhub utiliza inteligência artificial para ampliar a capacidade de atendimento sem precisar aumentar o número de funcionários na mesma proporção. Esses exemplos pertencem a organizações de grande porte, mas os princípios também podem ser aplicados por pequenas e médias empresas. Documentar tarefas, eliminar etapas desnecessárias e automatizar atividades repetitivas não depende exclusivamente de grandes investimentos. O primeiro passo é identificar onde a equipe desperdiça tempo. Elaborar escalas manualmente, conferir estoque em anotações, atualizar planilhas repetidas vezes ou responder diariamente às mesmas perguntas dos clientes são atividades que podem ser simplificadas com ferramentas acessíveis. O que as empresas podem fazer agora A preparação para uma eventual mudança na jornada não precisa esperar pela aprovação de uma nova regra. Algumas medidas podem melhorar a eficiência imediatamente. A primeira é documentar os processos essenciais. Cada tarefa importante deve possuir orientações claras para que não dependa exclusivamente da memória ou da experiência de uma única pessoa. A segunda é automatizar atividades repetitivas. Sistemas podem ajudar no controle de estoque, elaboração de escalas, atendimento inicial, emissão de documentos, acompanhamento de pedidos e análise de vendas. A terceira é estabelecer indicadores objetivos. Em vez de controlar apenas o tempo que o funcionário permanece na empresa, a gestão pode acompanhar vendas, conversões, prazos, qualidade do atendimento, satisfação do cliente e cumprimento de metas. Outra iniciativa importante é colocar a tecnologia entre as prioridades da direção. Quando ferramentas digitais são tratadas apenas como despesas do setor de informática, dificilmente se transformam em vantagens competitivas. O proprietário precisa participar dessas decisões, compreender quais problemas serão resolvidos e acompanhar os resultados dos investimentos realizados. Eficiência não significa sobrecarregar funcionários A busca por produtividade não deve ser confundida com exigir que menos funcionários façam o trabalho de uma equipe inteira. Esse comportamento pode aumentar o esgotamento, elevar a rotatividade e prejudicar a qualidade do atendimento. Eficiência significa eliminar desperdícios, melhorar processos e utilizar a tecnologia para reduzir tarefas desnecessárias. O objetivo é permitir que os profissionais concentrem seu tempo em atividades que exigem criatividade, estratégia, negociação e contato humano. Uma empresa que só consegue obter lucro mantendo funcionários constantemente sobrecarregados possui um modelo vulnerável. Qualquer mudança trabalhista, aumento de custos ou dificuldade para contratar pode comprometer sua continuidade. Mudança pode separar operações profissionais das amadoras Alterações regulatórias costumam favorecer organizações capazes de se adaptar rapidamente. Empresas estruturadas conseguem reorganizar turnos, rever horários, automatizar atividades e ampliar os canais de atendimento. Já os negócios que funcionam com improvisação tendem a reagir somente quando a mudança se torna obrigatória. Nesse momento, o custo da adaptação pode ser maior e a empresa corre o risco de perder espaço para concorrentes mais preparados. Durante muitos anos, parte do varejo brasileiro cresceu impulsionada pelo aumento do consumo. Porém, faturar mais sem fortalecer processos, tecnologia e gestão pode criar apenas uma aparência de crescimento. A escala de trabalho pode mudar, assim como o cenário econômico, o comportamento dos consumidores e as tecnologias utilizadas nas vendas. Por isso, a melhor proteção para o empresário é construir uma operação eficiente, organizada e capaz de continuar funcionando sem depender de improvisações. Independentemente da decisão sobre a escala 6×1, o debate deixa um alerta: esperar a nova regra entrar em vigor para iniciar a transformação pode ser tarde demais. O empresário precisa acompanhar diretamente a gestão, corrigir as fragilidades da operação e preparar sua empresa para diferentes cenários.

Fonte: InfoMoney

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